2 Coelhos

Posted on fevereiro 3, 2012

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2 Coelhos

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Roteiristas: Izaías Almada (script doctor), Afonso Poyart
Diretor: Afonso Poyart
Elenco: Fernando Alves PintoCaco Ciocler, Alessandra Negrini 
and Marat Descartes
Sinopse: Edgar tem um plano, matar dois coelhos com uma caixa d´agua
só.

(Contém pequenos spoilers) Estou muito feliz de estar vivendo esse momento do cinema brasileiro. Apenas alguns anos atrás seria impossível pensar em assistir um filme como esse em um cinema comercial, e o fato de isso estar acontecendo me deixa extremamente animada pro futuro. E depois de toda essa animação vocês devem estar pensando: “Uau, esse filme deve ser uma obra-prima!” Não, infelizmente (ou felizmente, sei lá), ele não é, mas é algo que precisamos muito mais do que uma obra prima, no atual cenário do cinema nacional: um ótimo filme comercial. E essa é ao mesmo tempo a melhor coisa e a pior coisa sobre esse filme.

O andamento do filme é muito bom e tem um ritmo rápido que reflete bem os dias de hoje e a urbanidade de São Paulo.  O enredo se desenrola quase sem engasgos e a ação nunca para. Durante o filme inteiro você fica tentando entender como todas as peças se encaixam, e o filme consegue te enganar bem em alguns momentos. Talvez te engane até bem demais. Porque o maior problema que eu tenho com esse filme é que ele esconde tanta informação no início que pra mim foi um pouco difícil criar uma conexão com o personagem principal, apesar da performance de Fernando Alves Pinto ser muito boa, bem diferente do usual herói de ação, meio fechado e esquisito, algo que me lembrou um pouco um outro bom filme que teve alguns problemas, chamado Reino Animal.

Edgar - 2 Coelhos

E isso se torna ainda mais frustrante quando na verdade Edgar é um personagem interessante, mas o enredo é tão denso e envolve tantas pessoas em tantos lugares que é fácil perder de vista o porque do Edgar estar nessa bagunça em primeiro lugar. Principalmente porque quando você começa a entender um pouco as motivações do personagem, vários momentos se passaram que seriam muito mais interessantes se tivéssemos certas informações.

Mas por outro lado, eu também me pergunto se isso não faz parte do tema do filme, já que no final o plano do Edgar não era sobre ele mesmo. E por causa disso eu não consigo decidir se o filme não fez o dever de casa na hora de me fazer entender a essência do Edgar na hora certa, ou se esse jeito indireto de apresentar informações tinha o objetivo de refletir os sentimentos de Edgar sobre si mesmo, o que ele tinha feito e todos os sentimentos complexos que vieram com tudo isso.

Edgar em forma de Videogame

Walter, o personagem do Caco Ciocler, também sofreu um pouco dessa síndrome de Lost, já que o seu relacionamento com Edgar acabou saindo meio que do nada. E nessa parte eu realmente acho que foi um erro do roteiro. A única razão pra não mostrar o desenvolvimento dessa relação foi criar uma tensão que no final não era muito necessária, e servir como um Deus Ex Machina no final do filme. Eu acho que o filme seria bem mais interessante e o final seria muito mais ressonante se nós tivéssemos visto pelo menos um pouco mais do que aconteceu entre os dois.

E já que estamos falando de sentimentos conflitantes, e também não estou muito certa do que acho sobre o estilo visual do filme.  É bem estilizado e chama bastante atenção pra si mesmo. A parte designer em mim gosta bastante, mas eu acho que eles foram um pouco longe demais, especialmente em uma cena retratando um ataque de pânico que me fez ter flashbacks pras piores partes de  Sucker Punch, um dos piores filmes que eu já vi na minha vida (eu até acho que o Zack Snyder tinha boas intenções, mas isso é outra história).

Maicon - 2 Coelhos

Mas, quando funciona, é uma boa ferramenta pra ajudar a contar a estória, ajudando a identificar personagens, e até mesmo explicar o complexo enredo. O estilo hiperativo de edição também ajuda a estabelecer como é viver na cabeça do Edgar, e também ajuda a aumentar a tensão e o suspense, principalmente no início onde há bastante exposição de temas e temos que conhecer muitos personagens.

O imenso elenco de personagens de apoio é quase perfeito, e é com eles que o roteiro realmente brilha. Tudo bem que usar criminosos como alívio cômico já virou um pouco clichê em filmes brasileiros, mas eles são muito engraçados aqui, e as discussões sobre as menores coisas nas piores horas possíveis me lembrou bastante de Archer. Tudo que faltou foi uma discussão sobre gramática. Eles também fizeram um ótimo trabalho com o bando, cada um era um personagem facilmente distinguível, com um personalidade própria, e por mais que cada um não tenha tido tanto tempo de tela, fizeram o melhor com o tempo que tiveram.

Julia - 2 Coelhos

O filme também consegue lidar com corrupção, um tema não muito agradável, de um jeito único, já que nesse filme ela está muito mais ligada á uma questão pessoal do que a uma ideológica, ou algo do tipo.  Na verdade o filme até tem algumas considerações interessantes sobre moralidade enterradas em todas as explosões e vinhetas, mas é meio difícil pensar sobre elas quando tem mais umas 11 coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Como eu disse, o filme é bom, tem um enredo interessante, boas performances, e é muito bem feito, mas eu já que poderia ter sido um filme ótimo, em vez de apenas bom, se tivesse ido um pouco mais fundo nos seus personagens e tivesse um estilo visual um pouco mais coerente. mas eu ainda acho que é exatamente o tipo de filme que precisamos no Brasil no momento, pra mostrar as pessoas que a gente pode fazer mais do que novela no cinema e filmes de arte. O trailer tá aí embaixo, porém eu acho que tem bastante spoiler, então se você liga pra isso, não assista!

PS: Esqueci de falar da cena de abertura! A MELHOR que já vi em um bom tempo. E não to falando só de cinema brasileiro aqui não…

—{—}—

Writers: Izaías Almada (script doctor), Afonso Poyart
Director: Afonso Poyart
Stars: Fernando Alves PintoCaco Ciocler, Alessandra Negrini 
and Marat Descartes
Summary: Edgar, a middle class brazilian guy, finds himself in a unique
place to bring down corrupt politicians, criminals and get closure with
one big plan.

(Mild spoilers ahead) I’m really happy to be witnessing this moment in brazilian cinema. Only some years ago it would be impossible to watch a movie like this in a commercial theater, and I’m ecstatic that this is finally happening. And after all this effusiveness you must be thinking: “Wow, this must be a masterpiece!” No, unfortunately (or fortunately) it is not, but it’s something that the brazilian movie industry is very much in need right now: a very good commercial movie. And that is both its biggest strength and its biggest weakness.

The movie has a good sense of pace and rhythm. The plot unravels without many hiccups and the action never stops. During the entire movie you are trying to figure out how all the pieces fit together, and the movie does a good job with the misdirections. Maybe it even does too good of a job. ‘Cause the biggest problem with this movie for me is that it conceals so much information from you that I had a hard time connecting with the main character, even though Fernando Alves Pinto delivers a good performance, very different from your usual action hero, more closed off and off-beat, something that reminded me a little of another good movie I couldn’t quite get into, Animal Kingdom.

Edgar - 2 Coelhos

And that frustrates me even more, because I do think that Edgar is an interesting character, but the plot is so thick and involves so many people in so many settings, that you can easily lose track of why Edgar is in this mess in the first place. Mostly because it takes a good chunk of the movie till you actually begin to understand why he would do something like that.

But on another hand, I also wonder if that isn’t somewhat the point of the movie, since in the end, Edgar’s plan wasn’t really about him. And because of that I can’t decide if the movie simply didn’t do its job of making me understand what made Edgar tick early enough, or if all the misdirection was supposed to reflect Edgar’s feelings about himself, what he had done and all the very complex stuff that came with it.

Edgar em forma de Videogame

Walter, Caco Ciocler’s character, also got short shrifted here, because his relationship with Edgar comes sort of out of nowhere. And this part I do feel it was a mistake. The only reason not to flesh out their relationship was to create a bit of tension that was ultimately unnecessary, and even served as a sort of Deus Ex Machina at the end of the movie. I think it would’ve been a lot more interesting, and the ending would’ve been a lot more powerful if we got even some hints of what it was going on between the two of them.

And since we are talking about conflicting feelings, I also have them about the visual style of the movie. It’s very showy, and calls attention to itself constantly. The designer part of me sort of loves it, but I do think they go a bit to far with it, especially in a particular scene, portraying a panic attack, that made me have PTSD style flashbacks to Sucker Punch, not cool.

Maicon - 2 Coelhos

But when it works, it turns into a great storytelling tool, helping to identify characters, and even explaining the complex plot.  The ADHD style of editing also helps to establish what is like to live in Edgar’s head, and even helps to up the tension and suspense of the movie, especially in the beginning where there’s a lot of exposition and character introduction to get through.

The immense cast of supporting characters is also great, and here the script really shines. The funny bad guys are turning into a bit of  a trope in brazilian cinema, but they are very funny here, and the discussions about the littlest things at the most inappropriate times reminded me a lot of Archer. All that was missing was a discussion about the proper use of language. They also did a very good job of making each bad guy its on person, and even though most of them don’t get a lot of screen time, they make the most of what they get.

Julia - 2 Coelhos

The movie also manages to deal with corruption, a theme that is usually a bit trite, in a different way by making it more about Edgar’s personal experience than about ideology, or something like that. Actually the movie does have some interesting considerations about morality buried underneath all the explosions and fancy visual cues, but it’s sort hard to get to them while you’re watching the movie, because there’s 11 more things going on at the same time.

All and all, like I said, it was a good movie, with an interesting plot, great performances and really well made, but I think it could’ve crossed over from good to great if it had dug a little deeper into its characters and made the visual style a bit more coherent. But I still think it’s just the kind of movie we need in Brazil right now to show people, that we can do more than silly comedy or art cinema. The trailer is below, it is very spoilery, so if you care about spoilers, don’t watch it!

PS: Forgot to talk about the opening scene! BEST one I’ve seen in quite some time, and I’m talking all movies here, not just brazilian ones.

Posted in: Film